sábado, 25 de abril de 2015

Café Liégeois


Uma sobremesa de creme de café e natas e uma história.
Há sabores e cheiros que nos transportam no tempo, esta sobremesa tem esse poder sobre mim.

Era uma vez uma menina que tinha apenas 11 meses quando o pai emigrou.
Ouvia dizer que o pai tinha ido "a salto" para França", coisa que demorou a perceber como é que com um salto o pai tinha ido para tão longe, se ela, que andava sempre aos saltos das árvores e muros nunca saía do mesmo lugar.
Quando lhe perguntavam onde estava o pai, respondia "para lá do norte".
A noção de distância dela era essa.
Se quando ia para o Minho ou Trás os Montes demorava quase um dia a andar de carro, então o pai ainda estava mais longe porque demorava muito mais tempo a voltar a casa.
Era uma menina que tinha brinquedos como nenhuma das amigas tinha. Sempre que iam lá a casa ficavam encantadas com as bonecas, os serviços de chá em plástico, o fogão, a bicicleta, até o telefone que tocava como se fosse a sério.
A menina tinha tudo. Brincava em plena liberdade. Adorava observar as galinhas a esgravatar a terra, as ovelhas a pastar. Correr pelo campo com o cão atrás.
Era uma menina feliz, que ficava triste nas festas da escola, porque não tinha o pai presente como os outros meninos.
No aniversário e Natal o pai estava presente em forma de postal ou fotografia.
Havia o "querido mês de Agosto" que significava a chegada do pai para passar férias.
Significava alegria, passeios e mais brinquedos.
Houve um dia que o pai da menina mostrou-lhe uma fotografia onde ele estava com alguns colegas de trabalho.
A menina não reconheceu o pai.
O pai sentiu uma tristeza enorme, e disse "isto não pode ser. Tem de acabar."
Nesse mesmo mês começou a tratar de tudo para levar a menina e a mãe para França.
A menina tinha acabado o 1º ano do ciclo, ia cheia de sonhos porque finalmente já não ia ser só em Agosto que iam estar todos juntos. Passariam a estar sempre.
A viagem foi muito cansativa. Nunca mais acabava.
Quando chegou à cidade onde ia morar achou tudo muito cinzento.
As casas todas iguais.
Não gostou.
Passados alguns dias detestava tudo.
Detestava estar fechada em casa porque não podia ia para a rua brincar.
Quando a deixavam ir para a rua brincar não conhecia ninguém, e muito menos percebia.
A menina começou a ficar doente e sempre triste.
A esperança dela era entrar para a escola e encontrar novas amigas.
Esse dia chegou. O pai tinha-lhe dito que ia para uma escola onde falavam português.
Falavam, mas falavam pouco, falavam mais naquele dialecto que ela não percebia.
A menina sentia-se num mundo à parte. Os novos amigos falavam com ela numa língua que ela ainda não conhecia, e como ela não respondia riam-se dela.
No meio dessa tristeza encontrou o Sergie e a irmã Louise.
Eram os únicos meninos que lhe explicavam tudo num português que ela mais ou menos entendia.
Só ao fim de semana é que a menina se sentia mais feliz e despreocupada .
Ia ao hipermercado que para ela era um mundo novo e a ida a uma pastelaria lanchar, era outro mundo encantado para ela.
A vida da menina não foi fácil, a dos pais também não porque a filha estava realmente muito, muito triste. A solução foi a mãe voltar com ela para Portugal.

Infelizmente hoje, passados tantos anos esta história repete-se com muitos pais e filhos.



Agora vamos à receita.

Experimentem que vão gostar tanto quanto eu, com toda a certeza.

Receita adaptada Mes Inspirations Culinaires


Ingredientes (rendeu 5 copos)

Creme
500 ml de leite
6 colheres -sopa- de natas para bater (cerca de 150 ml)
120 g de açucar
6 gemas
30 g de amido de milho
2 colheres -sopa- de café solúvel


Cobertura

200 ml de natas para bater bem geladas
2 colheres -sopa- de açucar em pó
1 colher -sopa- de açucar baunilhado ou 1 colher- chá- de extracto de baunilha


Para decorar
Café solúvel e raspas de chocolate

Leve ao lume a ferver o leite e as natas. Retire do lume depois de ferver.
Numa tigela bata as gemas, o açucar e o amido de milho até obter um creme esbranquiçado.
Junte o café solúvel e continue a bater até o café estar bem incorporado na gemada.
Junte o leite quente em fio e continue a bater para evitar criar grumos.
Depois de bem misturado, leve a lume brando mexendo sempre até o creme espessar.
Retire do lume e deixe arrefecer um pouco. Mexa de vez em quando para evitar que o creme solidifique.
Depois de morno distribua o creme pelos copos ou taças, enchendo o máximo até  3 terços do copo.
Leve ao frigorífico cerca de 3 horas, ou até o creme solidificar completamente.  

Para a cobertura bata as natas bem geladas uns minutos, junte o açucar baunilhado e o açucar em pó a pouco e pouco e bata até obter um chantilly bem firme.
Com a ajuda de um saco de pasteleiro ou com uma colher acabe de encher os copos de creme com o chantilly.
 Decore com café solúvel e raspas de chocolate, coloque no frigorífico e sirva bem gelado.




Notas:
Pode fazer de chocolate, substituindo o café por chocolate em pó.